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Carta aos Brazukas integrados Um novo país, uma nova vida e muitos desafios, a começar pelo idioma. Após meses de espera, finalmente você começa seu curso de integração, conhecido pelo nome de inbugering cursus. Ainda é um misterio o que lhe espera na terra onde tulipas simbolizam lucro e moinhos e diques impulsionam o futuro, atraindo turistas e fomentando o comércio mundial nos seus portos. Num mundo globalizado, falamos inglês e tudo se resolve de modo mais fácil. Mas quando se vive num país como a Holanda , uma das formas de ser “aceito” e sentir-se “integrado” é dominar o idioma de Erasmus de Roterdã e tantos outros símbolos da história mundial. A Holanda vive momentos delicados; nos jornais e na imprensa em geral fala-se de “integração compulsória” e leis são criadas como forma de “agilizar”e “controlar’ a entrada de imigrantes no país. A economia oscila em tempos do euro. A comunidade européia cresce e novas medidas são tomadas para “proteção” do mercado interno. Conflitos religiosos e raciais ganham as manchetes; bombas e atentados estampam os noticiários de tevê. Extremistas e radicais, políticos inflamados exercitam suas idéias mirabolantes e sua xenofobia num discurso sutil. Vivemos outros tempos, onde a tão proclamada “liberdade de expressão” dá lugar á “liberdade” para intolerância. Durante o curso de integração, estudamos sobre a sociedade e cultura holandesa, fazemos testes no computador e com fones de ouvido passamos pela sabatina diária.Se pudéssemos ver a língua holandesa como uma pessoa, acho que ela seria como aquela vizinha meio estranha de hábitos ás vezes esquisitos. Pra quem está aqui a pouco ou a muito tempo, ás vezes ela nos olha de lado, dá um bom dia meio atravessado, meio displicente, esperando que agente nem tenha ouvido. Limpamos a garganta e ensaiamos uns erres e com um goeiemorgen (bom dia) saudamos a nossa buurvrow (vizinha) que na sua bicicleta está sempre com pressa.O tempo passa e de vez enquanto ao econtrarmos a nossa vizinha, ela parece menos chata, quero dizer saai ,mas nem por isso disposta a nos ajudar ou interessada no que temos a dizer. Jeetje (Deus do céu!), como é ela é chagrijnig!!! (mau humorada) . Dessa vez no parque a passear com o seu cão, entrevemos nela um sorriso pela metade. E assim as coisas mudam como as estações, mas só que lentamente. Ano vem, ano vai, já aprendemos a comprar no mercado os gêneros de primeira necessidade e até a pedirmos um korting (desconto), pois quem não arrisca não petisca.Esteriótipos a parte há muita gente boa e simpática nessa terra com certeza. Pra ser aceito, seja você mesmo o tempo todo. Mas é claro que ás vezes teremos que fazer certas concessões , pois estando no terreno dos outros é de se esperar que joguemos segundo as regras deles. Lembre-se que preconceito gera preconceito, mas nem por isso aceite tudo calado. Temos sangue nas veias, orgulho e dignidade.Mantenha sempre a cabeça erguida e veja esse período de adaptação como parte do seu processo de crescimento e enriquecimento como ser humano. Nunca se esqueça de quem você é e de onde vem. Tenha sempre a auto estima elevada. Esteja aberto sempre ao novo e ao processo de intergração que se faz necessário. Aprendizado e integração Nos corredores da minha nova realidade chamada curso de integração; minha alma se sente perdida no limbo, entre dois mundos desiguais. Outras surpresas me aguardam ao longo desse processo. A nova língua me desafia a ser mais forte naquilo que ainda não sei. E tudo que já aprendi parece tão pouco diante das urgências. Integração virou moda e parece que esse novo mundo me põem á prova e exige o tempo todo atitude e disciplina.Nessa babel escolar as torres ainda estam de pé e só ouço os meus passos apressados em direção a mais uma aula. Sou apenas mais um estrangeiro terceiro mundista que corre contra o tempo perdido por outros. Folhas de papel dançam na minha frente e uma chuva de palavras inundam a minha mente, já cansada da labuta. Vejo pela janela minha liberdade que sopra os ventos desse meu destino e outras angústias me acompanham.Somos filhos desse exílio voluntário, compartilhando sonhos e esperanças. Não há conto de fadas nem príncipe valente ou princesa que cure nossas carências e resolva nossas queixas.O relógio do tempo anda devagar quando temos pressa de atravessar um campo minado.Na confusão de línguas que invadem os corredores da escola; estar na multidão compartilhando os mesmos conflitos não lhe torna imune á solidão que lhe acompanha e lhe espreita a cada esquina. Ser forte ás vezes dói mais do que ser covarde.Nas folhas do caderno; linhas, ondas, riscos e rabiscos, anotações aleatórias, folhas soltas, páginas amarrotadas no livro. Estamos nos integrando e nos desintegrando aos poucos. Cada um tem os seus dramas e suas dificuldades. Seus momentos de calmaria e suas revoltas. Seus vícios e suas curas. E cada um tem suas razões particulares para não ir embora nem admitir o fracasso.Se tudo um dia passa, então esse desabafo também um dia vira fumaça e se perde na curva de um tempo que não volta mais.Hoje nos faltam palavras pra dizer o que sentimos, mas sobram vazios a serem preenchidos. Nossos pés querem fugir pra um lugar em que nossas mãos não estejam mais atadas, nem nossas vozes embargadas e os olhos ávidos de compreensão.Só queremos um colo de mãe, voltar pra casa e fingir que nada disso aconteceu. Mas ao mesmo tempo entendemos que chegamos em busca de um sonho e de um sentimento. Chegamos com gás e fé, e apesar das marés, nosso barco não vai virar e nos afogar na praia. Ás vezes rodamos a baiana e levantamos a saia; damos a volta por cima.Todos precisam se integrar com certeza; a começar pelos naturais, nativos cativos de si mesmos. No que arranha e não escarra e no que olha e não vê quem somos.Retiramos os rótulos e confiamos no produto. Somos de primeira linha, somos seres humanos do primeiro,do terceiro e quarto mundo. Dignidade não se compra, mas se nasce com ela. Olhamos pela janela uma paisagem mais fria e distante. Bate mais forte no peito um samba cheio de molejo que faz brilhar o nosso diamante verdadeiro. Sim sou brasileiro com muito orgulho e naquilo que não posso mudar ainda no meu país, não sou mais um desses que se junta pra falar mau. Toda nação tem seus pecados e atos de altruísmo. O verdadeiro amor não escolhe a fúria das marés e os maremotos pra se fazer presente. O amor nasce o tempo todo e as diferenças só vem para acrescenta e nunca dividir.Hoje estou me integrando a troncos e barrancos, cambaleante e cansado, com a cara no livro, engolindo palavras à seco. Hoje o meu desabafo tem o compasso da espera, do que os anos irão me trazer de bom, de doce e de amargo, numa terra que ainda não me conhece muito bem, com uma língua que ainda não sei abraçar com carinho.Ainda tenho meus altos e baixos. Fico alegre e fico triste, e perco o sono no meio da noite pra me perguntar o que vim fazer aqui. Ainda faço de conta que nada me atingi e que nem o vento mais frio enruga a minha pele. Ainda calo meus medos quando fixo os olhos em ponto nenhum na viagem pro trabalho ou de volta da escola. Ainda tenho meus dias nublados e meus dias de sol. Ainda sorrio feito criança com as minhas bobagens e fecho os olhos pra não chorar em público.O que se torna duro e díficl me fortalece com certeza. O que um dia irei reconhecer como aprendizado de vida. Onde não havia saída construí minhas portas e destranquei as oportunidades. Sou estrangeiro confesso, sou brasileiro e sou feliz sendo quem sou.Muitas vezes contradizendo minhas rimas e meus sonhos pueris; minha criança ressiste e em tudo me assiste e nunca me condena.Somos risíveis e humanos, e nossos pecados já fazem parte de nós. Na vida há armadilhas que o destino nos prega e nos erros e acertos outras lições a serem aprendidas. Realidade e ficção Quem vem de um outro sonho feliz de cidade, sabe que ter tulipas no jardim não garante o sentimento de estar integrado e feliz. Tudo ainda está por ser conquistado num país tão diferente, onde culturas se mesclam sem nunca se visitarem de verdade. O mundo real ainda não foi pintado com as mesmas cores alegres das histórias que lemos nos livros ou nos romances.Não viemos pra reclamar da vida, mas encontrar meios, saídas e agarrar as chances com as duas mãos. Ter fe é pra quem realmente acredita em si, pra quem leva consigo a emoção de ser capaz mesmo quando as pernas não parecem ressistir ao cansaço e os olhos já pesados dos livros pede um momento de trégua.Somos estrangeiros nas salas e corredores de uma europa que cria novas regras em função da integração compulsória. Temos medo de falharmos com nós mesmos. O espírito parece ficar mais velho quando as diferenças parecem isolar e excluir. O mundo parece parar lá fora e a pressa aqui dentro cobra de nós resultados. Me integro no novo mundo, no que há de velho, no que ainda tenho que superar. O meu lugar ainda não foi conquistado, e as horas se arrastam como pesadas correntes. Vivo outras apreensões que me acompanham ao longo dos anos.Ando em busca de uma história, um resgate de quem sou. Conhecidos e novos amigos tudo espera o tempo exato para nascer e ser definido. Como novas palavras, verbos, situações, acontecimentos, e tudo mais que não compreendo ainda.Sopram aos meus ouvidos o que o futuro me reserva. Ás vezes não sei o que me faz alegre ou triste, forte ou fraco. Meu esforço parece se extinguir como o gelo que começa a derreter após as 10 da manhã. Onde eu queria estar e onde eu não estou. Perguntas que rolam sem resposta exata. Sofremos os efeitos psicológicos do choque cultural. Sofremos com as distâncias e as indiferenças.Ás vezes me sinto só e acho tudo tão natural. Estágios de vida, experiências e sensações outras. Meu casaco me conforta. Penso que talvez eu precise abrir as minhas portas e socilabilizar. Vagam meus pensamentos tentando mudar meu estado de espírito.Na sala há um silêncio. No burburinho, entre uma lição e outra; vozes e sotaques. O que se entende e o que se esquece. A língua nos confunde, e não há manual de como se aprende de fato. Aos poucos você começa a aceitar a realidade das coisas, as limitações. O frio se torna apenas mais um companheiro indesejável, o qual devemos aprender a suportar.Não tenho mais os olhos tristes. Entendo melhor os dramas compartilhados, e a solução pra eles está em nós e em mais ninguém.Dois mundos duas culturas, dois idiomas. Chamas que se alimentam de alegrias diferentes.O que desbota meu sorriso, mas não apaga minha alma brasileira. Esse algo mais festivo, ativo, efervecente. O que desbota meus sonhos, mas não amputa meus gestos plenos de latino americano. O que me faz me arrepender por um segundo, mas não destroí minha fé e minha garra no que há de novo nesse velho mundo.O que era europa pra mim, hoje parece uma outra história contada pelos cartões postais. Não preciso olhar pra trás pra saber o que mudou em mim. Não preciso revelar meu nome pra deixar de ser mais um estranho pra você. Sons urbanos A cidade desvela seus véus; metáfora pra diversidade cultural. Tudo parece tão normal entre ruas e avenidas; na pressa dos pneus, nos passos e em olhos que tudo querem e nada sabem. Na sinfonia caótica da metrópole, cada um cava sua sorte, busca seu lugar, luta pela sobrevivência. Na inconstância do relógio, atrasamos os dias e perdemos as horas. Poesia de quem vem de longe, folhetim de quem nem tudo revela. E na novela diária, cada capítulo fica na história. Cada relato, fica gravado na memória de quem nos conhece e de quem sente saudade de um lugar, de um país, de uma gente, de uma música que nos remete ás nossas raízes. No longe e perto; no metrô, no trem, na estação de ônibus, no catamarã que cruza o rio. A vida tem seus vazios e nós preenchemos com tudo que aprendemos, com tudo que compartilhamos. Somos humanos; rimamos a vida e desafinamos nas notas de uma música reticente, nos sons urbanos, na melodia desafinada da cidade grande.No bairro, na rua, na casa, no quarto, na memória que destranca os armários. No lirismo dos versos estamos pelo avesso. E na lógica estranha das coisas, encontramos nosso caminho nesse novo mundo; nessa vida nova que inauguramos. Todos os sons num só. Tudo que já era e tudo que ainda não nasceu. Estamos atravessando as pontes reais em busca das imaginárias, combinação quase perfeita na teoria. Nos planos futuros e presentes, naquilo que nos custa entender. Razões pra crescer de dentro pra fora. O ontem, o amanhã e o agora.Temos alma de poeta e temos sonhos de criança. Aprender a ser feliz e não reclamar mais da vida. Sermos inteiros e nunca mais pela metade. Sermos parte de um todo e sermos o todo em todas as partes. Integração: palavra de ordem. Nos jornais, na tevê, na propaganda, no folheto da prefeitura. Hoje não vamos mais reclamar da vida, nem da sorte, nem da chuva fria, nem do trânsito. Mas saber que na sutileza de um outro idioma entendemos o modus viventis de um povo do norte.Somos de uma outra latitude. O longe que nos acompanha nos faz estar perto de onde queremos estar. Nossa casa, nosso referencial, nossa bússola emocional, nosso lar. Nossa realidade e nossos sonhos num grão de areia, num floco de neve, num vento mais forte que acorda nossas idéias e nos faz lutar por uma vida mais justa naquilo que é tão diferente e igual.Somos João e Maria, somos latinos, tropicais, exagerados muitas vezes. Hoje o que me faz feliz tem o poder de desanuviar meus pensamentos embaçados. Traçamos novas rotas e escrevemos outros mapas. Tentando ler nas entrelinhas e adivinhar que caminhos devemos seguir.Confesso que ainda me perco nos sons que não decifrei, e na minha própria voz descubro outras tonalidades e texturas vindas dessa mistura cultural; reflexo dos anos que parei de contar nas folhas de um calendário pendurado no quarto de hóspedes.Holanda e Brasil me habitam e me completam sem deixar-me órfão do país que embala outros sonhos de um povo ainda gentil. Nas crônicas urbanas falo da cidade que adotei e de como sobrevivo no sal dos anos e no doce-amargo da saudade que nunca me abandona. Rimas e lições No relógio da parede já sei que um outro tempo acaba de chegar. Perguntas no livro da minha existencia, o agora não tem hora pra acabar.Quem abre as portas do velho mundo? Quem sabe me olhar nos olhos e sorrir sem disfarces?Somos indivíduos no singular, somos estrangeiros pra nós mesmos. No silencio da mesa ao lado, quem me diz bom dia ? quem aperta a minha mão ? No silencio de perguntas que vagam na minha mente, o frio me lembra onde estou e o amor ainda cresce no jardim à espera da próxima primavera. Doce ilusão, doce quimera. A vida fala de assuntos práticos, do quanto se paga por tudo. O preço da nossa lealdade não tem preço. Outras lições ainda esperam o tempo exato para serem aprendidas. Hoje não quero falar das diferenças e das falsas aparências, do que machuca e nada acrescenta ao meu aprendizado.Quando falo mais alto, o silencio rouba minhas palavras, cessa meus passos e cega minha visão. Agora no escuro vejo as cores em outra perspectiva. Construindo saídas e destrancando vontades, desejos distraídos. Não sei quem sou naquilo que ainda querem saber de mim.Só sei da chuva de granizo, da neve molhada, dessa lírica atmosfera pela janela. Tudo parece canção de ontem. O casaco parece sorrir pra mim, enquanto as botas se divertem com as longas meias de esquí.Na escola, na sala, no parque, ou do outro lado da rua. Ninguém acena, ninguém sabe o meu nome. Só sei que há um longo caminho a percorrer. Eu poderia ser você neste momento, um recém-chegado, louco, santo, ou comportado. Com rimas ou sem rimas, poeta e homem maduro. Vivo meu tempo, o meu aprendizado. Livros, canetas e cadernos ocupam o espaço e o meu tempo. Me integro um pouco a cada dia e o que não sei será que antes sabia?Tolas reclamações, tolices humanas , delírios passageiros. Meu travesseiro não acompanha os meus pensamentos na dura labuta de construir frases que façam sentidos numa língua que vive das exceções e nunca dos porques e do talvez.Emigro de anseio em anseio; empacoto meus sonhos pra outras viagens enquanto essa não termina. Quem sabe um dia minha alma deixe de se perder em labirintos. Quem sabe um dia volte pra casa com outras babagens. Quem sabe o que hoje ainda não aprendi sirva pra construir minhas próprias pontes pra um futuro menos incerto, no que há de seguro e no que não me permite dessistir.Chegamos até aqui,você e eu. Cheguei onde meu sonho foi plantado. Essa semente de vários nomes, esse compasso de outras esperas. Na batida da vida , seu coração também vive no descompasso. Nesse tempo de aprender, no que me faz tão parecido com você e no que sempre vai acrescentar. Amigos e irmãos pra quem não vive de intrigas e fofocas e pra quem não perde tempo em apostas querendo saber quem vai ganhar ou perder na vida e no amor.Tempo pra ler um romance ou plantar uma árvore, criar os filhos do coração. Ver carinhos florescerem no sorriso de quem mereça. Tempo pra esquecer os dissabores, amores perdidos, nomes e atitudes que desaparecem como se nunca tivessem existido. Tempo de estar feliz nas pequenas grandes coisas que a vida nos reserva.
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